“Respiramos
demasiado depressa para sermos capazes de captar as coisas em si próprias ou de
denunciar a sua fragilidade”
Emil Michel Cioran. (1911-95). Pensar Contra Si Próprio
Cioran
apresenta-nos um pensamento pessimista da própria condição de SER humano e
coloca em diálogo direto a liberdade e a ação. Para este autor, sentir, agir,
interagir, deturpa a nossa consciência e torna-nos incapazes de pensar
livremente. Como tal, e uma vez que não conseguimos ausentar-nos da ação, a
liberdade é um conceito utópico e inatingível.
Correndo o
risco de desvirtuar o pensamento do autor, vou-me deter um pouco neste
"respirar" sôfrego e apressado de que ele nos fala que, me parece,
retrata de forma fidedigna a realidade atual.
Tem-se
tornado cada vez mais evidente que vivemos na sociedade do imediato (e do
imediatamente), em que tudo nos é dado em formato de "pacotes
promocionais".
A escola vem em pacotes que se adequam às "necessidades" e níveis
de dificuldade; a televisão é agora feita à medida de quem a consome;
a informação multiplica-se em diferentes meios e feitios e vamos passando
pelos dias mergulhados em excessos (de oportunidades, de escolhas, de agir).
O aleatório e subjetivo instala-se e o mundo respira depressa demais. O
pulsar do agora e pré-feito dá-nos a oportunidade de escolher sem pensar e sem
pesar consequências.
Estes
"pacotes promocionais" que enformam os nossos dias tornam-nos
inconsequentes e superficiais e fazem-nos querer "comprar" mais e
mais, sem termos sequer consumido o que já temos.
Acredito que vivemos na armadilha do imediato e na ilusão da liberdade
pois, uma vez que não somos convidados a pensar, não aprofundamos nem nos
apropriamos de nenhum dos "pacotes" que compramos (apesar de os
assumirmos como perenes convicções) e acabamos por escolhê-los de forma
aleatória e comodista.
O mesmo autor diz-nos que "só tem convicções aquele que não
aprofundou nada" e, de fato, se pensarmos nos absolutos percebemos que
estes estão presos à temporalidade, individualidade e contextos dos relativos.
A vida só É relativamente à morte, deus só existe porque o Homem decidiu
pensá-lo e a ciência só nos dá verdades provisórias.
A palavra-chave desta deambulação parece-me ser "aprofundar"...
temos que respirar pausadamente, sorver apenas os "pacotes promocionais"
que nos interessam e aprofundá-los, captar a sua essência e
questioná-los.
Quem não questiona as suas convicções está condenado a viver na ilusão de
que é livre!